Estudo de células CAR-T será ampliado para tratamento de lúpus e miastenia gravis

USP, Hemocentro de Ribeirão Preto, Instituto Butantan e Fapesp assinaram acordo para o desenvolvimento de terapias avançadas contra doenças autoimunes

Texto: Erika Yamamoto – Jornal da USP

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No dia 17 de junho, a USP, o Instituto Butantan, o Hemocentro de Ribeirão Preto e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) assinaram um acordo de cooperação para o desenvolvimento de terapias avançadas contra doenças autoimunes.

“É muito bom ver que as pesquisas continuam avançando e, além dos resultados obtidos no tratamento das neoplasias hematológicas, estamos avaliando também o seu potencial uso para tratamento de doenças autoimunes. Além de aprimorar o desenvolvimento de know-how nacional, estabelece-se aqui o potencial para ampliar a capacidade operacional e pensarmos em uma soberania nacional em insumos dessa natureza, com resultados extremamente produtivos para o Sistema Único de Saúde brasileiro. Esta é a missão da USP e de todas as universidades públicas: gerar conhecimento transformador e inovador e traduzi-lo em ações que beneficiam a vida das pessoas”, afirmou o reitor da USP, Aluisio Segurado.

O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, ressaltou que “a terapia celular é um tratamento que tem revolucionado o combate ao câncer e às condições crônicas e autoimunes, pois age diretamente nas células afetadas por essas doenças. O objetivo da parceria é permitir que, futuramente, essa tecnologia avançada esteja disponível para os brasileiros, inclusive através do SUS. É missão do Instituto Butantan propor soluções para a saúde pública do Brasil”.

A parceria prevê a realização de ensaios clínicos com a terapia celular CAR-T para o tratamento de lúpus eritematoso sistêmico (LES) e de miastenia gravis generalizada (MGg). Os estudos estão seguindo as etapas regulatórias e serão submetidos para aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Com esses estudos, damos mais um passo para consolidar o Brasil como protagonista no desenvolvimento de terapias celulares avançadas. Fazemos isso a partir de uma universidade pública, de um hospital público, de um hemocentro público e de instituições brasileiras comprometidas com a ciência, a inovação e o acesso. Este ecossistema de inovação – USP, Fapesp e Instituto Butantan – reúne os elementos necessários para que muitas outras iniciativas venham a nascer. Ele mostra que, quando instituições públicas de excelência trabalham juntas, é possível produzir conhecimento de fronteira e, ao mesmo tempo, responder a necessidades concretas da população brasileira”, explicou o diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Rodrigo Calado.

Para o presidente da Fapesp, Marco Antonio Zago, “é muito bom testemunharmos o momento em que as principais instituições de biotecnologia do Estado de São Paulo firmam um acordo, com objetivos claros, para fazer progredir a ciência e a tecnologia aplicada em benefício da população. São essas instituições de pesquisa que criam condições para o desenvolvimento permanente e não depender, exclusivamente, das tecnologias compradas e transferidas. Essa capacidade de fazer e desenvolver conhecimento é fundamental”.

O evento também contou com a presença do diretor-executivo da Fundação Butantan, Saulo Nacif; do superintendente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Ricardo de Carvalho Cavalli; e do diretor-presidente da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, Vanderson Rocha. Durante o evento, o Instituto Butantan também recebeu a biofarmacêutica chinesa IASO Bio para formalização de um acordo assinado em abril deste ano, que visa ao desenvolvimento de uma nova terapia avançada contra câncer hematológico.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Os novos tratamentos

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, que pode evoluir rapidamente ou de forma lenta e progressiva. A condição pode acometer diferentes órgãos e é caracterizada por sintomas como febre, emagrecimento, perda de apetite e fraqueza.

Já a miastenia gravis generalizada é uma doença autoimune que afeta a comunicação entre os nervos e músculos, provocando fraqueza muscular. Em alguns casos, pode causar dificuldades para engolir, falar e respirar.

Caso sejam aprovados, os estudos clínicos pretendem selecionar 16 pacientes adultos, homens e mulheres, com lúpus eritematoso sistêmico e 10 pacientes adultos com miastenia gravis generalizada. Os voluntários serão recrutados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP-USP) e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (HCFMUSP), em São Paulo.

Ambos os grupos deverão incluir pacientes com doença grave, que já tenham realizado pelo menos dois tipos de tratamento convencional e que não obtiveram resposta adequada.

Terapia celular CAR-T

Desde 2022, o Instituto Butantan, o Hemocentro de Ribeirão Preto e a USP trabalham em conjunto para desenvolver a terapia CAR-T contra leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não-Hodgkin de células B. O tratamento é desenvolvido no Núcleo de Terapia Avançada (Nutera), que conta com unidades em São Paulo e em Ribeirão Preto. Em 2024, as instituições deram início ao ensaio clínico de fase 1/2, que tem apresentado resultados promissores, com mais de 87% de eficácia contra casos graves.

A terapia celular CAR-T surgiu nos Estados Unidos em 2010 e acumula mais de 60 anos de estudos científicos. A tecnologia modifica geneticamente os linfócitos T (células de defesa) do paciente, tornando-os capazes de combater as células tumorais. Por ser um tratamento alvo-específico, a CAR-T também tem sido estudada contra doenças crônicas e autoimunes.

No Brasil, a terapia começou a ser testada em 2019 em pacientes com leucemia e linfoma que não respondiam aos tratamentos convencionais, tendo apresentado 80% de eficácia na redução de tumores.

(Com informações da Assessoria de Imprensa do Instituto Butantan)

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