Uma nova estratégia de terapia celular pode ajudar a tornar as células CAR-NK mais eficientes no combate a leucemias e linfomas de células B. A proposta combina o ataque direto às células tumorais com uma segunda função: reduzir a capacidade do próprio sistema imunológico de bloquear a ação das células terapêuticas.
No estudo “Coexpression of GITRL confers resistance to Treg cell-mediated immunosuppression to anti-CD19 CAR-NK cells”, publicado na revista Frontiers in Immunology, pesquisadores do Laboratório de Biotecnologia do Hemocentro de Ribeirão Preto/CTC-USP, coordenados pela Dra. Virginia Picanço e Castro, desenvolveram células CAR-NK anti-CD19 modificadas para produzir uma molécula chamada GITRL. Por isso, elas foram denominadas CAR19-GITRL-NK.
As células NK, sigla para natural killer (“assassinas naturais”), fazem parte do sistema imunológico e têm a capacidade de reconhecer e destruir células anormais. Na terapia CAR-NK, essas células são geneticamente modificadas para receber um receptor quimérico de antígeno (CAR), que funciona como um sistema de reconhecimento capaz de direcioná-las contra determinados alvos presentes nas células tumorais.
🎯 Neste caso, o alvo escolhido foi a molécula CD19, encontrada em células B malignas, presentes em algumas formas de leucemia e linfoma.
Um segundo desafio: o ambiente do tumor
Um dos obstáculos para as terapias celulares contra o câncer é o chamado microambiente tumoral. Além das próprias células cancerígenas, esse ambiente contém células e moléculas que podem diminuir a resposta imunológica.
Entre elas estão as células T reguladoras (Tregs), cuja função normal é controlar a intensidade das respostas do sistema imunológico. No câncer, porém, elas podem contribuir para a supressão da resposta antitumoral, dificultando a ação das células terapêuticas.
🔎 Foi justamente esse problema que os pesquisadores buscaram enfrentar.
Ao adicionar o GITRL às células CAR-NK, a estratégia busca interferir na atividade das células T reguladoras. O GITRL interage com o receptor GITR, encontrado em níveis elevados nas Tregs, podendo modificar sua função.
Assim, as células CAR-NK passam a apresentar duas características complementares: reconhecer e destruir as células tumorais e, ao mesmo tempo, enfrentar um dos mecanismos que podem impedir sua atuação.
Células mais preparadas para combater o tumor
Os experimentos mostraram resultados promissores. As células CAR19-GITRL-NK apresentaram maior capacidade de expansão e alterações metabólicas associadas a um funcionamento mais eficiente.
A abordagem poderá contribuir para o desenvolvimento futuro de terapias celulares mais potentes contra leucemias e linfomas de células B, ampliando o potencial das tecnologias baseadas em células NK geneticamente modificadas.
📺 Assista abaixo ao depoimento gravado pela Dra. Dayane Schmidt, uma das autoras do estudo, para a TV Hemocentro RP, e saiba mais!